domingo, 22 de junho de 2008

Ao Amor Antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


Fonte: Carlos Drummond de Andrade

domingo, 15 de junho de 2008

Sou Eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio! ...

Álvaro de Campos

domingo, 8 de junho de 2008

Show do Maná em Porto Alegre e eu Não vou


Há meses, o fim da turnê "Amar es combatir", da banda mexicana Maná, estava definido - 8 de maio, em Monterrey, no México. Estava de bom tamanho, pois seria o 112.º show da excursão, depois de mais de um ano na estrada. Mas, segundo conta o vocalista e guitarrista Fher Olvera, alguns muitos e-mails de fãs brasileiros fizeram o grupo adiar as férias - eles fazem shows no Brasil em junho, em São Paulo (4 e 5), Rio (6, no Citibank Hall) e Porto Alegre (dia 8). - Começamos a receber centenas de e-mails vindo do Brasil, pedindo que a banda passasse por aí. Estávamos cansados, mas não podíamos ignorar isso, tocar no Brasil é ótimo. Combinamos: "Ok, mas será o último país" - lembra o vocalista da banda, que depois aceitou mais uma data, dia 12 de junho, na República Dominicana.

O apelo junto aos fãs brasileiros não é novidade, como atestam seus shows anteriores no país (2001, 2002 e 2006) para casas lotadas e os mais de 500 mil CDs vendidos aqui - no mundo inteiro, são 22 milhões. Ajudou muito na boa relação com o Brasil o sucesso da gravação com Santana de "Corazón espinado" e da balada "Vivir sin aire" (tema das personagens namoradas de "Mulheres apaixonadas", vividas por Aline Moraes e Paula Picareli). Mas Olvera acredita que a conexão da platéia brasileira com o Maná - a formação tem ainda Sergio Vallín (guitarra), Juan Calleros (baixo) e Alex González (bateria) - tem outras explicações.

- Os brasileiros conseguem captar a alma de nosso trabalho. Não importa se entendem só metade da letra ou pouco mais que isso - diz o vocalista, lembrando que o Maná tem uma canção em homenagem ao seringueiro e ambientalista Chico Mendes. - O que Chico fez é importante para todo o mundo. Ele é um símbolo das pessoas que se arriscam pelo que acreditam. Você vê isso também em Che Guevara. Chico Mendes é o Guevara da floresta.

Nas canções, o discurso politizado da banda se mistura com romantismo, regados a guitarras e violões, numa mescla latina de pop e rock. Não à toa, a frase "Amar es combatir" (amar é combater), do poeta mexicano Octavio Paz, batiza a turnê que passa pelo Brasil. Amor e combate, os dois assuntos favoritos do Maná.

- "Amar es combatir" refere-se ao bom combate, onde não há inimigos e sim combatentes. Há respeito por quem está do outro lado. Ouvi uma vez Bono (o vocalista do U2, grupo com o qual o Maná é freqüentemente comparado) falar de sua difícil relação com o pai, marcada por muita luta, mas também por muito amor. É disso que falamos - reflete Olvera.

A turnê "Amar es combatir" - por seu gigantismo, um marco na carreira do Maná - se transformou no CD/DVD ao vivo "Arde el cielo" (Warner), que acaba de chegar às lojas e inclui duas faixas-bônus, inéditas. O registro, a banda garante, é fidelíssimo ao que foi ouvido no palco, sem correções. Os erros, diz o vocalista, estão lá, "mas fazem parte da emoção". Se há falhas, elas passam despercebidas em meio à estrutura - som, luz, efeitos - de 69 toneladas.

- Estamos tentando dar o próximo passo, trabalhando com pessoas que fazem espetáculos de artistas como Madonna e Rick Martin. Nosso show está mais teatral - diz o músico, aproveitando para reforçar a fidelidade a seus princípios. - Mas não iremos gravar em inglês pensando no mercado americano, continuaremos cantando em espanhol. E não seguiremos modismos. Não é porque o reggaeton está na moda, por exemplo, que iremos tocar reggaeton. A moda não presta.

Musicalmente, o grupo mantém a coerência ao longo de sua carreira de mais de 20 anos ("Queremos continuar, talvez chegar a ser como os Rolling Stones, porque quando você está se divertindo o futuro é só um desdobramento do presente", diz Olvera). Uma trajetória marcada por poucos discos de estúdio, com longos intervalos entre eles - está programado para 2009 o sucessor de "Amar es combatir", que saiu em 2006.

Quem sabe um dia vou !

sábado, 31 de maio de 2008

P.S.: Eu te amo .



Comédias românticas são geralmente estereotipadas, classificadas como filmes para o público feminino, que assiste ao longa e acaba se esvaindo em lágrimas. Não chegaria ao ponto de dizer que P.S. Eu Te Amo, de Richard LaGrevenese (Paris, Te Amo), é uma produção para “elas”, mas ela rende boas lágrimas.

Quando uma pessoa amada morre, quem fica deseja poder ter tido mais alguns instantes com ela, fazer com que suas características permaneçam em nossa vida por mais algum tempo. Holy (Hilary Swank), protagonista de P.S. Eu Te Amo, tem essa “colher de chá”. Seu marido Gerry (Gerard Butler) morre devido a um tumor no cérebro e, durante todo período de sua doença, escreve cartas que serão enviadas à mulher após a sua morte. O longa centra-se na dificuldade de Holy em lidar com a morte do marido e os sentimentos que as cartas despertam nela.
Ir se divertir em uma boate, cantar num videokê, comprar um abajur ou fazer uma viagem: as cartas de Gerry dão os conselhos mais esdrúxulos à viúva, mas são eles que ajudam Holy a não enlouquecer e a voltar a tocar sua vida normalmente. Além das cartas, Holy tem uma turma de amigos que consegue levantar seu astral e garante uma boa dose de humor ao longa. As atrizes Lisa Kudrow, conhecida como Phoebe do seriado Friends, e Gina Gershon (Um Cara Quase Perfeito), formam uma dupla engraçada e revelam peculiaridades do universo feminino, como idéias sobre o casamento e o desejo de ser mãe.


Baseado no livro homônimo da escritora irlandesa Cecelia Ahern, os roteiristas Richard LaGrevenese e Steven Rogers conseguem criar uma ótima trama. Coesa e atraente, peca apenas quando abusa de alguns elementos inverossímeis, clichês da comédia romântica, como o desfecho da trama. No entanto, P.S. Eu Te Amo destaca-se no gênero pela qualidade e entrosamento dos atores. O romantismo continua o foco central do longa e, como gosto desse tipo de produção, é uma ótima opção para esses dias frios.